Palavras e Conceitos: A Propósito da Educação

[PodCast 01 – Palavras e Conceitos: A Propósito da Educação – v.06 – 20200727-11h30]

Prezado ouvinte deste podcast… Meu nome é Eduardo Chaves, e sou filósofo por ofício. É, para mim, um prazer estar aqui com você pela primeira vez… Minha intenção é, de vez em quando, colocar algumas minhocas em sua cabeça… Levar você a considerar a possibilidade de duvidar e, quem sabe, questionar, algumas ideias que foram inculcadas em sua mente ao longo de toda a sua vida, e que, hoje, aprisionam ou engaiolam sua mente dentro de paradigmas e daquilo que em Inglês de chama de mindsets: seus hábitos mentais, sua maneira de ver o mundo, sua forma de pressupor e assumir, sem mesmo considerar, certas ideias acerca da realidade física e social, e, em especial sobre questões como por que temos instituições, para que elas servem, como elas funcionam, que resultados produzem, se esses resultados são benéficos, maléficos, ou se nem fedem nem cheiram, em cujo caso essas instituições acabam sendo um enorme desperdício de dinheiro… Tenho em mente instituições como a escola. Ou a educação, que é uma instituição até bem mais antiga do que a escola. A educação sempre existiu, desde que existem seres humanos na face da Terra. A escola é algo bem mais recente.

Mas hoje vou começar falando sobre uma questão que eu considero filosófica. A Filosofia é o meu ramo de atuação, por isso vou começar por ela.

Pouca gente tem clareza sobre a diferença entre um conceito e uma palavra. Há gente que imagina que conceito e palavra são basicamente a mesma coisa, que são termos sinônimos. Mas não são, não.  Para começar, temos duas palavras em nossa língua, a palavra “palavra” e a palavra “conceito”… E essas palavras não são sinônimas, não significam a mesma coisa — e, por isso, não devem nem podem ser usadas de forma intercambiável.

Palavras fazem parte da nossa língua, daquilo que poderíamos chamar de nosso universo linguístico. Conceitos fazem parte de outro tipo de universo: o nosso universo lógico. Uma palavra pode ter sete letras, pode ter acentos, pode ser paroxítona, pode, se for substantivo ou adjetivo, ter um de dois gêneros, ser masculina ou feminina, pode ser grafada de forma errônea, pode ter um som agradável, quando pronunciada, etc. Nada disso se pode predicar de conceitos. Não faz sentido dizer que um conceito tem sete, ou dez, treze, qualquer número de letras; não faz sentido dizer que um conceito tem acento agudo ou circunflexo; não faz sentido dizer que conceitos proparoxítonos são mais interessantes e conceitos oxítonos mais chatos; não faz sentido especular sobre o gênero dos conceitos; não é possível grafá-los de maneira errada, nem, muito menos, de forma certa; nem é possível pronunciar um conceito, nem, por conseguinte, considerar o seu som agradável ou desagradável: conceitos simplesmente não têm som algum, e é por isso que são impronunciáveis. A gente só pronuncia palavras — que têm som.

Fixe bem isso em sua mente: palavras são uma coisa, conceitos são outra. E essas duas não se confundem. Tratar uma palavra como se fosse um conceito e um conceito como se fosse uma palavra é cometer um erro: o erro de confundir categorias diferentes. Esse é um tipo de erro que pega bastante mal.

Há palavras, como “manga”, que se referem a mais de um conceito: o conceito de uma fruta (que nasce da mangueira) e o conceito de uma parte de uma peça de vestuário (blusa, camisa, paletó, casaco, capa, etc.). A palavra “rapariga” pode se referir a mais de um conceito, dependendo de onde ela é usada, se no Brasil ou em Portugal (e mesmo no Brasil, dependendo da região). E há conceitos que são referenciados por mais de uma palavra: o conceito de um ser humano do sexo masculino ainda na infância é referenciado pela palavra “menino”, pela palavra “guri”, pela palavra “piá”, dependendo da região do Brasil em que nos encontramos, e pela palavra “miúdo” ou mesmo pela palavra “puto”, em Portugal… Assim, pode haver uma palavra só para mais de um conceito, e também pode haver várias palavras para um só conceito.

Assim, quando usamos uma palavra importante, como “educação”, é preciso ter em mente qual é conceito de educação a que estamos nos referindo. É muito possível que uma palavra importante, como essa, tão usada (e, às vezes, até abusada), e que tem uma carga valorativa positiva, seja usada para se referir a, ou para designar, vários conceitos distintos.

A maioria das pessoas, hoje, no Brasil, e mesmo fora daqui, quando fala em educação tem em mente um conceito meio difuso, que tem que ver com escolas, talvez especialmente com crianças, certamente com alunos ou estudantes e com professores ou ensinantes, mas, também, e necessariamente, com currículos, com aulas, com ensino, com testes, provas, e exames, etc. O mais das vezes, a aprendizagem nem aparece nessa lista… E quando aparece é para designar absorção e assimilação de informações… Nada mais.

No entanto, Jean-Jacques Rousseau, filósofo suíço do século 18, nascido em Genebra, escreveu um importante livro chamado Emílio – Ou da Educação, obra importante na história da filosofia e da educação, em que ele defende uma educação que tem lugar à medida que as pessoas vivem, interagindo livremente com a natureza e umas com as outras, sem escolas, sem currículos, sem aulas, sem ensino, sem ensinantes, sem testes, sem provas, sem exames, sem nada disso. Como pode?

Outro filósofo, ainda mais conhecido, Sócrates, no século 5,  antes da Era Cristã, que morava em Atenas, na Grécia, é hoje considerado por muitos o primeiro grande educador da história da educação. Só que ele próprio não se considerava um educador: considerava-se um parteiro, não de coisas relacionadas ao corpo, mas de coisas relacionadas à mente, que ajudava os outros a parir ideias e valores, a formar conceitos, enfim, a se educar… O importante é que a educação que ele tinha em mente não acontecia na escola, acontecia na praça; ele não seguia um currículo definido por ele ou por um grupo de educadores, mas se pautava pelas indagações de seus interlocutores; ele dialogava sobre coisas que interessavam ou preocupavam os seus interlocutores: eram eles que pautavam o seu discurso; ele não dava aulas; nas interações dele com os outros, ele não respondia a nenhuma pergunta, não ensinava nada (na realidade, dizia apenas saber que nada sabia: “só sei que nada sei!”); ele não aplicava testes, provas e exames, não dava certificados e diplomas, nada disso… A única ferramenta de sua prática educativa era fazer perguntas e questionar, com mais perguntas, as respostas que as pessoas davam às suas perguntas anteriores… Como pode?

Como é que a gente tem coragem de falar em educação socrática, que era a educação praticada por Sócrates, e em educação laissez-faire, ou educação libertária, ou mesmo em educação negativa, que era a educação defendida por Rousseau, e ao mesmo tempo, pensar, quando pensa em educação, exclusivamente sobre escolas, salas de aulas, aulas, dadeiros de aula, recipientes de aulas, currículos, matérias, provas, e coisas que tais?

Esta minha primeira fala, curtinha, tem o objetivo de lhe sugerir que você tenha mais cuidado com as palavras que usa, que pense bem nos conceitos que você imagina que suas palavras estão designando. Não se esqueça de que aqueles que estão ouvindo ou lendo você podem, ao ler ou ouvir suas palavras, vir a pensar em conceitos muito diferentes daqueles que você tem em mente. E isso certamente vai causar uma confusão danada…

[Eduardo Chaves – PodCast 01 – v.06 – 20200727-11h30]

Em Salto, 27 de Julho de 2020.

O áudio do podcast (um pouco modificado em relação a este texto, para caber em cinco minutos) foi disponibilizado em 24 de Julho de 2020 no sistema de podcasts Educa5, disponível na rede de podcasts do Spotify, da Apple, do Google, etc. A este podcast, em particular, foi dado, pelo Educa5, o título de “O Peso da ‘Educação“. Clique neste link para ouvir o podcast: http://gg.gg/ec-01.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s