Educação: Dois Conceitos Antagônicos

[PodCast 02 – Educação; Dois Conceitos Antagônicos – v.03 – 20200813-18h30]

No meu podcast anterior, o primeiro, eu falei sobre a importância de distinguir entre palavras e conceitos, e acentuei que uma mesma palavra, como “educação”, pode corresponder a mais de um conceito de educação — conceitos esses que são muito diferentes um do outro, a ponto de nem parecer fazer sentido usar a mesma palavra para se referir a eles. Assim, quando a gente usa a palavra “educação”, é preciso ter em mente que quem nos está ouvindo ou lendo pode ter em mente conceitos totalmente diferentes do nosso — e a comunicação se complica.

Neste podcast quero ilustrar melhor a questão.

Um autor que eu muito admiro, John Holt, educador americano já falecido há algum tempo, criticando a educação americana, na qual ele militou a vida inteira, chegou até a propor que deixássemos de educar as crianças e escreveu um livro chamado Instead of Education (Em Vez de Educar) em que sugeriu com que deveríamos substituir a educação.

Felizmente, John Holt era uma pessoa preocupada com ser entendido corretamente, e, por isso, ao propor que abandonássemos a educação, fizéssemos alguma coisa diferente com as crianças, e deixou claro o que tinha em mente por educação — qual era o conceito de educação sobre o qual estava falando. Disse ele:

“Defino educação, seguindo o entendimento da maioria das pessoas, como algo que algumas pessoas [os educadores, ensinantes, ou professores] fazem sobre outras [os educandos, estudantes, ou alunos], supondo ser para o bem destas, a saber: uma tentativa de moldar e dar forma à sua mente, fazendo com que [os educandos, estudantes ou alunos] aprendam uma série de coisas que [os educadores, ensinantes ou professores] acreditam que devam saber.” [John Holt, Instead of Education (Sentient Publications, Boulder, 1976, 2004, p.3 – cp. p.ix].

Holt deixa claro que ele é “total e inteiramente contra esse processo” (idem), como caracterizado. Se a educação é isso, também sou contra. (Mas registre-se que o verbo “aprender”, finalmente, apareceu em cena.)

 Mas eu me lembro de um amigo que eu tinha em Campinas, professor que dava 60 horas de História por semana, em três turnos, que um dia apresentou numa lista de discussão que eu coordenava na Internet (EduTec.Net), a mais linda e nobre definição de educação que eu já li ou ouvi. Seu nome era Antonio Carlos Rodrigues de Moraes, e ele era conhecido como Professor Toninho. Fui professor da filha dele no Curso de Pedagogia da UNICAMP. Disse ele:

“Educação é o processo através do qual as pessoas aprendem a sonhar seus próprios sonhos e e se tornam capazes de desenvolver as competências e habilidades necessárias para transformar esses seus sonhos em realidade.”

Definição fantástica, não? E que contraste em relação à anterior! Aqui não há ninguém, muito menos educadores, ensinantes ou professores, tentando fazer a cabeça de outras pessoas (educandos, estudantes ou alunos), moldando a sua mente, dando à sua mente a forma que eles (e não os donos das mentes) acham que ela deve ter… fazendo com que aprendam as coisas que eles, educandos, educadores, ensinantes ou professores, acham que devem saber. Aqui se enfatiza, em primeiro lugar, o fato de que as pessoas devem aprender a sonhar os próprios sonhos… Elas não devem receber sonhos prontos, acabados, embrulhados e empacotados por educadores, ensinantes ou professores — ou mesmo pelos pais, tios, avós, ou pelos pastores, padres e rabinos, ou pelos políticos, ou mesmo pelos meios de comunicação de massa, como o cinema, a televisão, o rádio e a Internet. As pessoas devem, em primeiro lugar, aprender a sonhar seus próprios sonhos e, em segundo lugar, se tornar capazes de desenvolver as competências e habilidades que lhes permitam transformar esses seus sonhos, que na realidade são seus projetos de vida, em realidade, em vida efetivamente vivida…

O objetivo da educação é que os bebês humanos, que nascem sem saber nada, e sem saber fazer quase nada, e, por isso, são dependentes de seus pais (ou equivalentes) por um bom tempo, gradualmente se desenvolvam e venham a adquirir autonomia. Essa autonomia não é dada aos bebês, crianças, educandos, estudantes ou alunos: eles precisam conquistá-la. E eles a conquistam tornando-se capazes de fazer coisas que antes não conseguiam fazer. Isto é, aprendendo. Aprender é isso: tornar-se capaz de fazer coisas que antes não se conseguia fazer. Os aprendentes certamente não fazem isso sozinhos: eles aprendem, primeiro, a sonhar os próprios sonhos e, segundo, a transformá-los em realidade em interação, colaboração, comunhão com outras pessoas, que as ajudam a construir a sua autonomia. Nunca sozinhos. Mas a aprendizagem é sua, a educação é sua, é obra delas próprias — porque elas são parte integrante e essencial do processo pelo qual elas constroem a própria vida, se tornam as pessoas que desejam ser.

Uma pessoa, digamos alguém, como John Holt, pode ser totalmente contrário à educação, no primeiro conceito mencionado (moldar, dar forma, etc. à mente dos outros, fazer a cabeça deles), e, no entanto, ser totalmente a favor da educação, neste segundo conceito, bem mais promissor, o conceito proposto pelo Professor Toninho…

Pense nisso. E até a próxima.

[PodCast 02 – Educação: Dois Conceitos Antagônicos – v.03 – 20200813-18h30]

Salto, 13 de Agosto de 2020

O áudio do podcast (um pouco modificado em relação a este texto, para caber em cinco minutos) foi disponibilizado em 14 de Agosto de 2020 no sistema de podcasts Educa5, disponível na rede de podcasts do Spotify, da Apple, do Google, etc. A este podcast, em particular, foi dado, pelo Educa5, o título de “Educar para Sonhar“. Clique neste link para ouvir o podcast: http://gg.gg/ec-02.

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