De Escolas Alternativas a Alternativas à Escola

PodCast 04 – De Escolas Alternativas a Alternativas à Escola – v.05 – 20200914-08h00

Eduardo Chaves aqui, mais uma vez.

Nos podcasts anteriores falei (um pouquinho) sobre a educação. A partir de hoje falarei mais sobre a escola (mais, mas não tanto).

Vou discutir a seguinte questão: se existem conceitos de educação radicalmente diferentes, todos eles referenciados pela palavra “educação”, será que alguns desses conceitos, os menos radicais, requerem uma escola diferente, ou seja, uma escola alternativa, e outros desses conceitos, os mais radicais, requerem algo que não é mais escola, mas, sim, uma alternativa à escola? Daí o título: De Escolas Alternativas a Alternativas à Escola.

Desde muito tempo atrás existem instituições mais ou menos parecidas com a escola que conhecemos. Entre os gregos clássicos havia liceus, academias, ginásios, etc. Só para homens da classe mais alta. Na Europa da Idade Média havia escolas junto às catedrais e alguns mosteiros, para preparar padres e monges, e, a partir do século 11, começaram a ser criadas universidades: em Bolonha, na Itália, a primeira (1088); depois as famosas universidades de Paris, na França, Oxford e Cambridge, na Inglaterra, Pádua, na Itália. A de Coimbra, em Portugal, foi criada em 1290 – foi a oitava universidade criada na Europa e que existe até hoje. Mas pouquíssima gente era beneficiada por essas instituições — embora o mundo ocidental seja inimaginável sem elas.

A instituição que é chamada de “Escola Moderna” começou, basicamente, no início da Era Moderna, na Saxônia (Alemanha), com Martinho Lutero, numa tentativa de garantir, para o Protestantismo Luterano, que estava se formando, bem no coração da Europa, os ganhos conquistados no conflito com a Igreja Católica.

Quanto à sua afiliação, a escola criada por Lutero era meio híbrida. De um lado, ela era uma instituição privada, pois pertencia à recém-criada Igreja Luterana. De outro lado, porém, como a Igreja Luterana foi se tornando gradativamente uma igreja estatal nos lugares para onde se espalhou, a escola luterana, que inicialmente era privada, foi se tornando indiretamente estatal — vale dizer, pública, controlada pelo Estado e financiada através de impostos. Veio a sofrer da mesma ambiguidade, nos países que continuaram católicos, a escola criada pelos Jesuítas, em um esforço de conter o desenvolvimento da Reforma Protestante. Dado o princípio do cujus regio ejus religio, ou seja, o país terá a religião que o rei adotar, em países em que o rei ou o príncipe ou imperador era católico, as escolas católicas ficavam, em grande medida, sob o controle estatal. No próprio Brasil Império deu-se isso. No século 19 eram os cofres imperiais do governo de Dom Pedro II que sustentavam a Igreja Católica no Brasil.

Até o final do século 20, a escola esteve em alta, especialmente diante do fato de que primeiro na Prússia, depois nos Estados Unidos, foi adotado um sistema de escola pública estatal que acabou predominando, não só naqueles dois países como nos demais — inclusive, pouco a pouco, aqui no Brasil. A diferença foi que, na Prússia e nos Estados Unidos, a escola pública teve, inicialmente, uma cara mais evangélica ou reformada, nas vertentes luterana ou calvinista. Em ambos os casos, o Protestantismo dava o tom da escola pública. Mas quando a escola pública surgiu nos países predominantemente católicos, como Itália, França, Espanha, Portugal e suas ex-colônias, inclusive o Brasil, a escola pública assumiu uma feição mais católica.

Essa escola, que é chamada de moderna, mas hoje é simplesmente tradicional, seguiu um modelo basicamente único. A evolução da escola moderna é um “case” notável de criação de um paradigma e de sua sustentação durante vários séculos. O paradigma inclui estes seis elementos:

  1. A educação existe para preservar e transmitir a cultura de um povo de uma geração para outra (primeiro para as classes dominantes, bem depois, para todas as pessoas);
  2. A escola é vista como o principal meio de educar — em alguns lugares, o único;
  3. O currículo escolar é organizado em termos de disciplinas linguístico-literárias ou, mais à frente, disciplinas científicas;
  4. O método de transmissão dos conteúdos é o ensino;
  5. O protagonista, no ensino, é o professor – o aluno fica quieto e presta atenção;
  6. O mecanismo de avaliação é a prova ou exame, que é aplicado aos que estão sendo educados / ensinados.

Mas aos poucos, o paradigma foi se desgastando. No século 20, depois da Primeira Guerra, mas principalmente depois da Segunda Guerra, começaram a surgir escolas alternativas, que procuraram modificar o paradigma em alguns aspectos significativos e bastante inovadores. Entre elas, Summerhill, na Inglaterra, em 1921; Sudbury, nos Estados Unidos, em 1968; a Escola da Ponte, em Portugal, em 1976; e a Escola Lumiar, aqui no Brasil, em 2003. Das quatro, a única que foi fundada antes da Segunda Guerra é Summerhill. Dessas quatro considero Sudbury a mais inovadoras delastão inovadora que nem parece ser escola, embora insista em ser chamada assim.

Hoje nota-se uma tendência na direção, não mais de criar escolas alternativas, ainda que bastante inovadoras, mas de buscar alternativas inovadoras à escola, algo que substitua a escola, como as propostas de Homeschooling e, mais radical, de Deschooling e de Unschooling . As propostas mais interessantes são, em minha opinião, as de Ivan Illich e John Holt, que começaram escrever sobre o assunto basicamente ao mesmo tempo, no final da década de 60, início da década de 70.

Nos meus próximos podcasts falarei um pouco mais sobre cada uma dessas quatro escolas alternativas e as três propostas de alternativa à escola, como homeschooling,  de um lado, e, do outro, deschooling e unschooling. Até lá.

PodCast 04 – De Escolas Alternativas a Alternativas à Escola – v.06 – 20201003-20h00

Salto, 3 de Outubro de 2020

Eduardo Chaves

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s